quinta-feira, 20 de outubro de 2011






Modos de citação do discurso alheio, vulgo fofoca.

A análise dos discursos dos personagens que integram um texto é de extrema importância tanto para a produção textual, quanto para a interpretação das intenções do autor de um texto, além de ser um assunto bastante abordado pelas principais bancas do nosso Brasil. O Narrador pode inserir a fala dos personagens por meio de três formas, dependendo totalmente da sua intenção de envolver mais o personagem na história, ou de conferir a uma declaração um matiz de veracidade e autoridade maior. Os processos de introdução de discurso alheio são: Discurso direto, discurso indireto e discurso indireto livre.

Discurso direto: A reprodução do discurso do (*) personagem por meio do autor é feita de modo objetivo e direto, ou seja, o autor confere ao personagem a possibilidade de propagar suas próprias palavras. O leitor tem, dessa forma, a sensação de estar ouvindo o personagem pessoalmente falando. As marcas linguísticas presentes em tal expediente são a presença dos chamados verbos dicendi (ou verbos de dizer), como disse, murmurou, perguntou, afirmou, falou, indagou. Tais verbos são um ponto de partida para que seja introduzida a fala dos personagens.

O treinador, revoltado, chamou o seu goleiro e perguntou:
- Max, vai continuar engolindo frangos?

Percebe-se que, além dos verbos de dizer, a pontuação também indica que o próprio personagem produzirá sua fala, pela presença dos dois-pontos e travessão. O uso do travessão ( - ) denota a revolta do treinador pela atuação do goleiro embaixo do travessão (com a permissão do trocadilho).

Discurso indireto: Nesse processo, a introdução da fala do personagem é feita de modo indireto, ou seja, o autor usa suas próprias palavras para reproduzir o que diz o personagem. Vamos ao exemplo:

O treinador, revoltado, chamou o seu goleiro e perguntou se ele continuaria engolindo frangos.

Nota-se que, neste caso, o personagem não fala por si. O autor cita a fala do goleiro através da presença, também, de um verbo discendi (perguntou). Todavia, não há a presença de sinais de pontuação que indiquem fala (dois-pontos e travessão), há, aqui, a presença de conjunções integrantes (que ou se). É o discurso da vizinha fofoqueira, onisciente e onipresente.

Discurso Indireto Livre: A nomenclatura desse tipo de discurso não se dá por acaso. Nele, inexistem marcas de pontuação, próprias do discurso direto. Também não ocorrem verbos de dizer ou conjunções. Não há, desse modo, diagnosticadores evidentes dos limites entre a fala do narrador e a do personagem. Em outras palavras, o discurso indireto livre é o discurso indireto, livre (isento) de verbos de dizer.

O treinador, revoltado, chamou o seu goleiro. Você vai engolindo frangos?

Neste tipo de discurso imperam frases interrogativas, exclamativas, optativas (desejos, ordens, súplicas), interjeições e outros elementos expressivos.

A respeito dos efeitos produzidos pelos diferentes tipos de discurso no universo linguístico, o discurso direto confere ao discurso um maior tom de verdade, oferecendo um quê de preservação da integridade das palavras do dono, inclusive com entonação. Já o discurso indireto não possui marcas emocionais ou afetivas, ele denota uma grande objetividade ao texto, observa-se, então, somente o conteúdo do que foi informado. Há claramente uma distância entre narrador e personagem, aquele não se interessa tanto pela individualidade deste, apenas visa o que foi dito, sem qualquer tipo de envolvimento. O último tipo de discurso, o indireto livre, mescla o que foi dito a respeito dos dois primeiros. Do ponto de vista gramatical, o discurso é do narrador; do ponto de vista semântico, do personagem. Ele é o meio do caminho entre a objetividade e a subjetividade. 

(*) Alguns gramáticos afirmam que o correto é A personagem, devido ao sufixo –gem, o qual sugere o gênero feminino (ex.: a reciclagem, a politicagem, a sacanagem). O uso moderno da língua me faz constatar e crer que personagem é um substantivo comum de dois gêneros. Portanto, O personagem.

Ousem fofocar,
Fabrício Dutra

2 comentários:

Anônimo disse...

Oi Prof.Fabrício, gostei de sua maneira de lecionar, divertido e prático. Valeu à aula aqui no Valparaiso, agora o resto é comigo e suas aulas.
Bjinhos e Abs. Mariana Marcelino

lilla Carvalhal disse...

parabééns Fabrício, ficou bem mais claro esse assunto pra mim depois da sua explicação.. Xero,obrigado